Greve Geral de 11 de dezembro: quando a falta de comunicação estratégica quebra a confiança entre líderes e trabalhadores

A greve geral convocada para 11 de dezembro, que reúne dezenas de sindicatos de setores essenciais como saúde, educação, transportes, banca, comunicação social e indústria, é muito mais do que um protesto laboral. É, acima de tudo, um sinal claro de falha grave na comunicação institucional e na gestão de relacionamento entre quem decide e quem executa.

O pacote laboral “Trabalho XXI”, apresentado pelo Governo no final de julho, introduz mais de uma centena de alterações ao Código do Trabalho desde contratos a prazo aos despedimentos, passando por licenças parentais e bancos de horas. Apesar da dimensão e do impacto direto na vida de milhares de trabalhadores, o processo foi percecionado como distante, técnico e pouco dialogante. Esse vazio comunicacional ajudou a transformar um debate político e jurídico numa crise de confiança social.

Quando não há RP, cresce o ruído

Do ponto de vista das Relações Públicas, o cenário é previsível. Sempre que uma organização pública ou privada, promove mudanças estruturais sem investir numa estratégia sólida de comunicação interna, abre caminho para interpretações negativas, resistência emocional e sentimento de exclusão.

Aqui, o problema não é apenas o conteúdo da reforma laboral, mas a forma como foi comunicada:

  • Falta de explicação clara e acessível sobre os objetivos da medida
  • Ausência de mensagens ajustadas aos diferentes públicos (trabalhadores, sindicatos, setores específicos)
  • Comunicação reativa em vez de preventiva
  • Pouco espaço para escuta ativa e negociação percebida como genuína

Na prática, os “patrões” deixaram de comunicar e quando a comunicação falha, o relacionamento quebra.

Silêncio institucional alimenta mobilização sindical

A decisão inédita de UGT e CGTP convergirem numa greve geral revela um ponto crítico: quando canais formais de diálogo perdem credibilidade, os trabalhadores recorrem à paralisação como forma de serem ouvidos.

A adesão anunciada por sindicatos da aviação civil, transportes ferroviários, metro, indústria, cultura e serviços públicos demonstra que o descontentamento não está isolado. Empresas como a TAP, ao cancelarem voos e permitirem reagendamentos gratuitos, antecipam o impacto operacional — mas o impacto reputacional é bem mais profundo e duradouro.

Para muitos cidadãos, o dia 11 de dezembro será sinónimo de constrangimentos: dificuldades em viajar, ir ao banco, levar crianças à escola ou aceder a cuidados de saúde. Cada falha operacional reforça a perceção de desorganização e conflito um custo reputacional que não se resolve apenas com serviços mínimos.

RP não é cosmética, é gestão de relações

Num contexto de alta sensibilidade social, a comunicação institucional deveria ter assumido um papel estratégico:

  • Explicar porquê antes de explicar o quê
  • Humanizar as mensagens, mostrando impacto real e medidas de mitigação
  • Construir narrativas de corresponsabilidade, não de imposição
  • Envolver líderes intermédios como embaixadores da mudança
  • Manter comunicação contínua, e não apenas nos momentos de crise

A ausência deste investimento em RP criou um vazio ocupado por ruído mediático, especulação e radicalização do discurso.

A lição da greve geral

A greve de 11 de dezembro não é apenas uma reação ao pacote laboral. É um alerta claro sobre a importância da comunicação estratégica como ferramenta de gestão, reputação e prevenção de conflito.

Organizações que não comunicam perdem legitimidade. Governos que não explicam perdem confiança. Patrões que não escutam perdem trabalhadores.

Em Relações Públicas, a regra é simples: quando o diálogo falha, a contestação fala mais alto.

E, neste caso, falou em forma de greve geral.

Artigo anterior
Artigo seguinte