Jornalistas: amigos, inimigos ou ambos?

No contexto das Relações Públicas, os jornalistas não devem ser vistos nem como “amigos” nem como “inimigos”. Devem ser compreendidos como parceiros estratégicos que desempenham uma função autónoma e essencial no ecossistema mediático. A relação é, por natureza, simultaneamente colaborativa e crítica — e é precisamente esse equilíbrio que a torna relevante.

Primeiro argumento: os jornalistas são aliados na construção de credibilidade.
A cobertura mediática confere legitimidade que a comunicação institucional, por si só, dificilmente alcança. Quando uma organização é citada num meio de comunicação social, beneficia do capital de confiança associado ao órgão de comunicação. Por exemplo, uma empresa que lança uma iniciativa de sustentabilidade ganha maior impacto se for mencionada num jornal económico ou generalista, pois a validação externa reforça a reputação. Neste sentido, o jornalista funciona como mediador entre a organização e o público.

Segundo argumento: os jornalistas podem representar risco reputacional.
A sua função é escrutinar, questionar e investigar. Se houver incoerências, falhas éticas ou crises mal geridas, o jornalista irá expô-las. Casos mediáticos de crises corporativas mostram como investigações jornalísticas podem desencadear danos reputacionais significativos. Aqui, o jornalista não é “inimigo”, mas exerce o seu papel social de fiscalização. Para as Relações Públicas, isto reforça a importância da transparência, da preparação para crise e da coerência discursiva.

Terceiro argumento: a relação deve ser estratégica e baseada na ética.
A arte retórica ensina-nos que credibilidade (ethos), lógica (logos) e emoção (pathos) são fundamentais na construção da mensagem. Na relação com jornalistas, o profissional de RP deve apresentar dados concretos, argumentos sólidos e enquadramento claro, sem manipulação. Um bom exemplo é a preparação de um press release bem estruturado: objetivo, factual e alinhado com critérios-notícia. Quando a informação é relevante e apresentada com rigor, a relação torna-se profissional e sustentável.

Em conclusão, os jornalistas são “as duas coisas” apenas na perspetiva de quem encara a comunicação como confronto. Numa abordagem madura de Relações Públicas, são stakeholders estratégicos, independentes e essenciais. A qualidade da relação dependerá da transparência, da consistência e do respeito mútuo. Não se trata de controlar a narrativa, mas de construir confiança através de informação credível e relevante.

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